domingo, 15 de julho de 2007

AS VACAS DE RENAN E RORIZ




Os bois de Renan, a bezerra de Roriz e a informação contábilMaurício Fernando Cunha Smytink [15/07/2007]
Mais de 120 mil brasileiros possuem patrimônio acima de R$ 1 milhão líquidos, segundo pesquisa da Merrill Lynch e Cap Gemini. Embora pouco significativo para um universo de cerca de 180 milhões, o dado revela que os milionários do país estão aumentando em ritmo surpreendente - 10% entre 2005 e 2006 -, taxa bem superior à da economia e incomparavelmente mais expressiva do que a do crescimento da renda da maioria da população.
Ciência que se ocupa justamente desse cobiçado objeto, a contabilidade pode mostrar com clareza a trajetória desses patrimônios, presumivelmente favorecida pelo bom desempenho da economia mundial e, internamente, pela estabilidade relativa da nossa economia, a despeito de um ambiente de negócios implacavelmente adverso e de uma carga tributária que saltou de 29% em 1977 para quase 40% hoje.
Claro que as demonstrações contábeis de um patrimônio só podem ser exibidas a partir de fatos e documentos concretos e verdadeiros. Nem saberes esotéricos esclareceriam como alguns abençoados puderam, em tão pouco tempo, ascender à condição de magnatas.
À parte os miraculosos enriquecimentos lícitos e ilícitos, os escândalos políticos despontam como nota explicativa de algumas evoluções financeiras extraordinárias. As investigações desses casos vão dar sempre em inconsistências e lacunas. As contas do senador Renan Calheiros são um exemplo de descaso e afronta à informação contábil: números que não fecham, notas frias, indicações de rendimento incompatíveis com as atividades... Afirma o senador que lucrou R$ 1,9 milhão, nos últimos quatro anos, com a venda de gado - o que analistas de mercado dizem ser impossível, de acordo com as condições do pecuarista.
Recai então sobre o senador a suspeita de que vinha tirando leite das suas posições de poder, em particular de relações com a empreiteira Mendes Júnior, acusada de pagar suas contas pessoais em troca da aprovação de emendas orçamentárias. Somente pelas obras do Porto de Maceió a empresa recebeu mais de R$ 13 milhões. Segundo sua Declaração de Renda, Renan Calheiros tem um patrimônio que chega ao montante de R$ 1,7 milhão, o que avaliações de mercado elevam para R$ 10 milhões.
Outro caso contabilmente obscuro é o do ex-senador Joaquim Roriz, que afirma ter pedido emprestado a um empresário R$ 2,2 milhões e, deste valor, destinado R$ 300 mil para a compra de uma bezerra. Mesmo que fosse muito gado, dizem que não foi para a aquisição de bois mas de dois juízes que o teriam livrado da cassação.
Enfim, não são poucos os brasileiros que enriqueceram, nos últimos tempos, tendo como atividade principal a política. Talvez o próprio presidente Lula possa ser incluído nessa lista. Não haveria mal nenhum, não fossem, em certos casos, os indícios de obtenção de vantagens, aceitação de presentinhos de amigos ou empresas, negociatas, favorecimentos, fraudes, insulto à ética e à contabilidade, como têm revelado as auditorias em torno das CPIs dos Correios, do Mensalão, dos Sanguessugas, entre outras.
Maurício Fernando Cunha Smijtink é contador, empresário da contabilidade e presidente do CRCPR; e-mail: mauricio@crcpr.org.br

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